Setembro Amarelo: coordenadora do CAPS de Orleans destaca importância do cuidado com a saúde mental durante todo o ano
Gabriela Fernandes explica como funciona o atendimento no município, fala sobre ansiedade, excesso de telas, apostas on-line e ações previstas para setembro
O Setembro Amarelo reforça, todos os anos, a importância da prevenção ao suicídio e dos cuidados com a saúde mental. Em Orleans, o tema será trabalhado ao longo do mês em diferentes ações da Secretaria Municipal de Saúde e também integra o projeto “Três Cores, Uma Causa”, da Guarujá FM, que aborda, além do Setembro Amarelo, o Outubro Rosa e o Novembro Azul.
Para falar sobre o assunto, o Jornal da Guarujá iniciou uma série de entrevistas com profissionais e representantes da área da saúde. A primeira convidada foi Gabriela Fernandes, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Orleans, que explicou como funciona a rede de atendimento em saúde mental do município e destacou a importância de não limitar o cuidado ao mês de setembro.
Saúde mental precisa ser cuidada o ano inteiro
Segundo Gabriela, o Setembro Amarelo tem papel importante justamente por ampliar a discussão, mas o cuidado com a saúde mental precisa fazer parte da rotina durante os 12 meses do ano.
“Estamos trabalhando já nisso desde o ano passado, da importância de cuidar da saúde mental de janeiro a janeiro. O que acontecia é que chegava em setembro e a gente ouvia falar muito de saúde mental, mas nos outros meses isso acabava ficando um pouco apagado”, explicou.
Para ela, a procura por cuidados relacionados à saúde mental tem aumentado e a sociedade também passou a reconhecer mais a importância do tema. Ao mesmo tempo, ainda existem conceitos que precisam ser desconstruídos.
Gabriela usa uma comparação para explicar essa diferença. Quando uma pessoa quebra um braço, por exemplo, as limitações físicas são visíveis e costumam ser imediatamente reconhecidas. Já dificuldades emocionais podem não impedir inicialmente que alguém trabalhe, cumpra compromissos ou mantenha a rotina, mesmo quando existe sofrimento.
Outro ponto destacado pela coordenadora é que saúde mental não se resume ao atendimento psicológico ou psiquiátrico.
“Temos a mania de pensar que saúde mental está muito ligada só ao atendimento clínico, ao atendimento psiquiátrico, ao atendimento psicológico, à terapia. Mas, para muito além disso, a saúde mental engloba muitas outras coisas”, afirmou.
Entre esses fatores estão o acesso à saúde, ao lazer, a condições básicas de vida e à alimentação, além de aspectos relacionados à rotina e ao bem-estar.
Gabriela também cita práticas de autocuidado, como atividade física e sono de qualidade. Segundo ela, o uso de medicamentos para dormir é uma realidade para muitas pessoas, mas é importante investigar também as razões que estão provocando a dificuldade para dormir.
Excesso de telas também exige atenção
A tecnologia facilita o trabalho, a comunicação e o acesso à informação, mas o uso excessivo pode se transformar em uma fonte de ansiedade.
A coordenadora do CAPS orienta que celulares, televisão, aplicativos e internet sejam utilizados com equilíbrio, principalmente no período que antecede o sono.
“É importante utilizar telas, televisão, aplicativos e internet com equilíbrio, estabelecendo horários para o uso, principalmente quando estiver relacionado ao trabalho. Também é necessário reservar tempo para atividades físicas, convivência com a família e desligar o celular antes de dormir”, orientou.
Ela ressalta que mudar hábitos pode ser difícil, principalmente quando o uso das telas já se tornou parte constante da rotina, mas considera possível recuperar gradualmente uma relação mais equilibrada com a tecnologia.
Durante a entrevista, Gabriela também explicou como funciona o atendimento em saúde mental em Orleans.
O município conta com nove unidades de saúde, que fazem o acolhimento inicial das demandas de saúde mental e contam com profissionais de psicologia. Já o CAPS atua como um serviço especializado, destinado principalmente a pessoas com transtornos psiquiátricos graves e persistentes, além de atender situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
O serviço também passou a acompanhar uma preocupação que ganhou força nos últimos anos: o comportamento relacionado às apostas on-line.
Segundo Gabriela, as equipes estão recebendo capacitação para lidar com essas situações e oferecer acolhimento adequado.
O CAPS de Orleans funciona das 8h às 18h, sem fechar ao meio-dia, e é um serviço de porta aberta. Isso significa que a pessoa que estiver passando por uma situação de sofrimento e precisar de acolhimento pode procurar diretamente o serviço.
Gabriela também chamou atenção para o preconceito que ainda existe em torno do CAPS. Segundo ela, muitas pessoas desconhecem o funcionamento do serviço e acabam criando uma imagem distorcida sobre o atendimento oferecido.
“Sempre convido as pessoas para irem conhecer o trabalho. São pessoas como nós e, em algum momento, qualquer um de nós pode precisar de um serviço especializado como o CAPS”, destacou.
Ela também explicou que a internação psiquiátrica não é adotada automaticamente. O encaminhamento ocorre quando há critérios que justificam a necessidade desse tipo de atendimento.
Segundo a coordenadora, o número de internações psiquiátricas no município atualmente é baixo, justamente porque a equipe busca acompanhar os pacientes e avaliar cada situação individualmente.
CAPS terá ações durante o Setembro Amarelo
Além dos atendimentos realizados ao longo do ano, a Secretaria de Saúde de Orleans preparou atividades específicas para o Setembro Amarelo.
A equipe está levando informações sobre saúde mental para empresas e escolas do município. A proposta é ampliar o acesso à informação e estimular a discussão sobre o tema em diferentes ambientes.
No dia 9 de setembro, será realizada, na praça, a ação “Saúde Mental na Praça”. A programação contará com roda de viola, apresentações de idosos, auriculoterapia e orientações em saúde.
Também haverá a participação de integrantes e grupos do CAPS, com exposição e atividades relacionadas à pintura em tela, crochê e pintura de toalhas.
Para Gabriela, iniciativas como essa ajudam a mostrar que o cuidado em saúde mental não acontece somente dentro de um consultório.
“Saúde mental não é só atendimento clínico individual, como as pessoas pensam. Saúde mental a gente constrói todos os dias, a gente cuida todos os dias”, afirmou.

Onde buscar atendimento em Orleans
Pessoas que necessitam de acolhimento em saúde mental podem procurar uma das nove unidades de saúde do município ou o CAPS de Orleans.
O CAPS funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, sem fechar ao meio-dia, e oferece atendimento de porta aberta para acolhimento.

Confira entrevista completa