Enio Coan analisa reeleição de Lula e aponta desafios econômicos e políticos para os próximos quatro anos
Em entrevista ao Jornal da Guarujá, cientista político e economista abordou o resultado das eleições, a situação das contas públicas, a governabilidade e a necessidade de reformas no Brasil
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre um novo período de desafios para a economia brasileira e para a relação do governo federal com o Congresso Nacional. O endividamento público, o cumprimento das promessas eleitorais e a necessidade de articulação política estão entre os principais pontos de atenção para os próximos quatro anos. Em entrevista ao Jornal da Guarujá, na manhã desta segunda-feira (26), o cientista político e economista Enio Coan analisou o cenário após o segundo turno e apresentou suas perspectivas para o novo mandato.
Lula venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) no domingo (25), por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos. O resultado também abriu espaço para questionamentos relacionados à condução do processo eleitoral, especialmente após a prorrogação do horário de votação.
A medida, atribuída a uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi um dos pontos questionados por Coan, que levantou dúvidas sobre a competência jurídica para a intervenção.
“Eu não consigo entender nem explicar essas coisas, mas parece-me que dessa vez, do ponto de vista jurídico, tem, sim, uma interferência ilegal”, afirmou.
Para o economista, decisões relacionadas à organização do processo eleitoral devem respeitar as atribuições da Justiça Eleitoral.
“Quem tem competência no Brasil de mexer na área de eleições é o Tribunal Superior Eleitoral”, declarou.
Apesar dos questionamentos apresentados, as declarações não comprovam irregularidades na votação ou na apuração. A eventual contestação judicial do resultado depende da apresentação de fundamentos e provas.
Contas públicas e promessas de campanha preocupam
Superada a disputa nas urnas, a situação econômica brasileira aparece como um dos principais desafios para o novo mandato presidencial. O crescimento da dívida pública e o impacto financeiro dos compromissos assumidos durante a campanha exigirão atenção ao orçamento federal.
Para Coan, algumas das propostas apresentadas aos eleitores poderão ampliar as despesas públicas e exigir mudanças no planejamento financeiro do governo.
“É impossível colocar em orçamento dívida ou coisas para serem pagas, seja lá o que for, que não tenham previsão orçamentária. Então os orçamentos vão ter que ser mudados”, afirmou.
A preocupação também se estende ao modelo de crescimento econômico adotado pelo país. Para Coan, o Brasil precisa estabelecer objetivos de longo prazo e ampliar as discussões sobre produtividade, investimentos e geração de riquezas.
“O que nós queremos? O que nós queremos?”, questionou.
O agronegócio foi apontado pelo economista como um dos setores fundamentais para o desempenho da economia brasileira nas últimas décadas.
“O agronegócio salvou esse país durante todo esse período”, afirmou.
Coan considera que o país precisa avançar na construção de um projeto econômico que ofereça perspectivas de desenvolvimento às próximas gerações.
“Então o Brasil é um país que caminha para trás, de fato olhando no retrovisor, olhando para trás, sem um projeto de país, sem um projeto de futuro para quem está nascendo”, avaliou.
Composição do Congresso exigirá articulação política
Além das questões econômicas, a governabilidade será determinante para a capacidade do presidente Lula de colocar em prática as propostas do novo mandato. A composição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal exigirá negociações com diferentes partidos e grupos políticos.
Para Coan, a relação entre Executivo e Legislativo poderá representar uma das maiores dificuldades do governo, especialmente diante da influência do chamado Centrão.
“Vai ter dificuldades muito grandes de governar, principalmente se o Congresso, se o Centrão perder força”, afirmou.
A formação de uma base parlamentar será necessária para a aprovação de projetos, alterações orçamentárias e outras medidas de interesse do Executivo. Na avaliação do economista, essas negociações poderão ampliar o custo político das alianças.
“Então isso vai custar muito também para o Lula. Se ele quer administrar o Brasil do jeito que ele vem administrando, isso vai custar muito dinheiro”, declarou.
As articulações em torno das presidências da Câmara e do Senado também poderão influenciar a relação entre os Poderes. Coan destacou especialmente o papel que os senadores poderão desempenhar nas discussões políticas dos próximos anos.
“Eu creio que o Senado vai dar o recado muito forte aí”, afirmou.
Reforma política e superação da polarização
A divisão política entre diferentes grupos e regiões brasileiras também permanece como um desafio após as eleições. Para Enio Coan, a continuidade dessa polarização dificulta a construção de consensos e reforça a necessidade de mudanças no sistema político e partidário.
“Eu penso que o Brasil precisa de reforma, tanto política quanto partidária. Esse nós e eles teria que acabar”, defendeu.
Coan considera que as diferenças regionais e as disputas partidárias precisam dar lugar a discussões mais amplas sobre o desenvolvimento nacional.
A importância econômica da região Sul também foi destacada por Coan, que defendeu a continuidade da produção e da geração de riquezas como fatores essenciais para o crescimento brasileiro.
“Eu espero que nós tenhamos forças aqui no Sul para continuar gerando as riquezas que o Brasil precisa para dividir com o resto”, concluiu.
Confira entrevista completa