Críticas ao plano federal de ferrovias unem governadores do Sul e MS
Em entrevista, Beto Martins detalha posição dos estados sobre a Malha Sul
Os governadores de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul assinaram um documento conjunto se posicionando contra a atual política nacional de concessões ferroviárias do governo federal.
Ao Jornal da Guarujá, o ex-secretário de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina e coordenador do grupo de trabalho de ferrovias do Codesul, Beto Martins disse que o principal ponto de discordância é a forma como o governo federal estruturou o plano de concessões da chamada Malha Sul, sem um debate mais aprofundado com os estados diretamente impactados.
O modelo apresentado pelo governo federal prevê a fragmentação da Malha Sul ferroviária em diferentes corredores, o que, segundo os estados, compromete a integração do sistema e reduz sua eficiência logística.
O documento assinado pelos governadores contesta justamente essa divisão da rede em trechos independentes, aponta falta de diálogo com os estados e cobra participação efetiva nas decisões sobre um projeto considerado estratégico para a economia regional.
Além disso, o ofício do Codesul encaminhado ao Ministério dos Trasnportes questiona a previsão de oito leilões ferroviários, incluindo três que tratam especificamente da fragmentação da atual Malha Sul. Para o grupo de trabalho, esse formato não atende às condições necessárias para a recuperação e modernização do modal ferroviário no Sul do Brasil.
De acordo com Martins, os estados buscam há mais de um ano um diálogo mais direto com o governo federal para discutir a situação da ferrovia na região, que hoje opera de forma limitada.
“Há mais de um ano estamos tentando um debate, um diálogo. Hoje, apenas cerca de 25% dos trechos ferroviários da região Sul estão funcionando. Isso tem impacto direto na economia”, afirmou.
Ele citou como exemplo o setor agroindustrial de Santa Catarina, especialmente a suinocultura e a avicultura, que dependem fortemente do transporte de insumos como o milho.
“Nós trazemos milho do Mato Grosso e Goiás por caminhão, o que é um contra-senso logístico. Isso reduz a competitividade da nossa produção e afeta diretamente a indústria”, explicou.
O coordenador do Codesul também criticou o formato proposto pelo governo federal, que prevê a divisão da Malha Sul em diferentes trechos, o que, segundo ele, pode comprometer a viabilidade do sistema como um todo.
“Existe o risco de alguns trechos terem interesse econômico e outros não. Isso pode resultar em licitações desertas e deixar a região sem ferrovia”, alertou.
Beto Martins defende que o modelo ferroviário precisa de participação dos estados e contrapartidas públicas para ser viável.
“No mundo inteiro, ferrovia depende de investimento público e complementaridade do Estado. Sem isso, não há sistema sustentável”, disse.
Ele destacou ainda que Santa Catarina já iniciou ações nesse sentido, com a criação de uma estrutura estadual voltada ao tema, e afirmou que o governador Jorginho Mello lidera o movimento de defesa de uma revisão do modelo.
“Os quatro governadores assinaram um documento pedindo a revisão do plano e a abertura de um diálogo real sobre a Malha Sul”, completou.
Durante a entrevista, o ex-secretário também alertou para os impactos econômicos da possível fragilização do sistema ferroviário na região, incluindo reflexos nos portos e na competitividade industrial.
“Santa Catarina tem uma forte estrutura portuária, mas sem ferrovia integrada, toda a logística fica comprometida. Isso pode afetar a permanência de indústrias no estado”, afirmou.
Ele citou ainda a situação da ferrovia Tereza Cristina como exemplo de operação considerada eficiente no estado.
“A Tereza Cristina é o único trecho que funciona bem, porque tem continuidade e gestão adequada. Já outros trechos estão abandonados, com risco de depredação”, concluiu.
Confira entrevista completa