Acordo entre Mercosul e União Europeia é assinado após mais de 25 anos e pode trazer impactos positivos e riscos à economia brasileira
Em entrevista, economista Enio Coan analisa vantagens, riscos e impactos do tratado para o Brasil
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo econômico entre os países que compõem o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente assinado neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai. O tratado prevê que a União Europeia elimine cerca de 92% das tarifas de importação e conceda acesso preferencial a aproximadamente 7,5% das exportações do bloco sul-americano.
Apesar da assinatura, o acordo ainda não entra em vigor. Para que passe a valer, o texto precisará ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos, um processo que pode se estender por anos e enfrentar resistências políticas, especialmente dentro da União Europeia, além de possíveis ajustes na configuração final do tratado.
Para analisar os possíveis impactos do acordo na economia brasileira, o Jornal da Guarujá conversou com o economista e cientista político Enio Coan, que classificou o tratado como um dos mais relevantes da história recente do comércio internacional.
“É um dos maiores acordos multilaterais da economia mundial, da globalização da economia. Mercosul e União Europeia são dois dos maiores blocos do mundo, representando mais de 22 trilhões de dólares em produção e quase 800 milhões de consumidores”, afirmou.
Segundo Coan, a longa duração das negociações está diretamente relacionada às semelhanças entre os produtos produzidos nos dois blocos, especialmente no agronegócio, setor que gerou forte resistência por parte de países europeus.
“Essa negociação demorou tanto porque há uma igualdade muito grande entre os produtos produzidos lá e os produzidos aqui, principalmente no agronegócio. França, Alemanha e outros países são muito fortes nesse setor e tinham receio da livre negociação, porque o custo deles é muito maior do que o nosso”, explicou.
No campo industrial, o economista destacou que o acordo pode trazer avanços tecnológicos importantes para o Brasil, mas alertou para riscos estruturais no médio e longo prazo.
“Na indústria, nós teríamos vantagens grandes por termos acesso a máquinas, equipamentos e tecnologia de ponta, mas isso também traz uma desvantagem, que é o risco de desindustrialização da economia brasileira. Não é um risco de curto prazo, é de longo prazo”, ponderou.
Coan também chamou atenção para os impactos sobre pequenas e médias empresas brasileiras, que podem enfrentar maior concorrência com produtos importados.
“A pequena e a microempresa vão ter desvantagens, porque o consumidor vai ter acesso a produtos importados mais baratos. É um efeito parecido com o que já aconteceu no Brasil com a China, no vestuário, nos produtos do lar e em itens de primeira necessidade”, afirmou.
No agronegócio, o economista explicou que o temor europeu está relacionado à competitividade dos produtos sul-americanos.
“O grande medo da Europa, principalmente da França, é a invasão de produtos do agronegócio brasileiro com preços bem abaixo daqueles praticados lá. Isso está por trás dos protestos dos agricultores franceses”, disse.
Por outro lado, Coan destacou que países do Mercosul também devem sentir os efeitos da maior abertura comercial, especialmente em segmentos como o de vinhos.
“Vai haver uma invasão de produtos europeus aqui. Brasil, Argentina, Uruguai e Chile vão sofrer principalmente nos vinhos de alta qualidade, com preços um pouco mais altos”, observou.
Sobre o início efetivo da vigência do tratado, o economista reforçou que o processo será demorado e dependerá de regulamentações detalhadas.
“Sem dúvida, isso demora algum tempo, anos até. A regulamentação do acordo é que vai determinar quais produtos ficam incluídos, se as taxas vão zerar totalmente e como isso vai funcionar na prática”, explicou.
Entre as possíveis vantagens adicionais para o Brasil, Coan citou o setor farmacêutico, que pode se beneficiar da redução de impostos e do acesso a tecnologias europeias.
“Os grandes laboratórios estão na Alemanha. Se isso entrar na regulamentação do acordo, nós podemos ter vantagens grandes na aquisição de medicamentos e até na utilização de patentes para produção de alguns remédios no Brasil”, afirmou.
Para o economista, apesar das incertezas e dos riscos envolvidos, o acordo tende a ser mais vantajoso para o Mercosul do que para a União Europeia.
“Há riscos, sim, mas eu penso que há mais vantagens para o Brasil e para o mercado sul-americano do que desvantagens. A Europa é que corre um risco maior de invasão de produtos em setores onde há muita similaridade entre o que se produz lá e aqui”, concluiu.
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