Tarifaço dos EUA aumenta preocupação de consumidores e empresários, mas comércio catarinense segue resiliente
A confiança de consumidores e empresários do comércio em Santa Catarina registrou queda desde a entrada em vigor do primeiro pacote de tarifas imposto pelos Estados Unidos, em agosto do ano passado. Apesar do aumento do pessimismo, os principais indicadores da economia catarinense ainda apresentam resultados positivos. A avaliação é da economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio-SC), Edilene Cavalcanti, em entrevista ao Jornal da Guarujá.
Segundo a economista, a confiança do consumidor caiu 3,1% em julho, refletindo uma piora na percepção sobre a economia, o consumo, o acesso ao crédito e as perspectivas profissionais.
“Os consumidores estão preocupados, assim como os empresários. Há uma percepção mais negativa em relação ao cenário econômico, mas isso ainda representa uma expectativa, não um impacto efetivo sobre os principais indicadores da economia”, explicou.
Edilene ressalta que o levantamento mede o sentimento dos agentes econômicos e não necessariamente o desempenho real do comércio.
“Os empresários ficam mais cautelosos para investir ou contratar, e os consumidores tendem a adiar compras. Mas, até o momento, isso ainda não se refletiu de forma significativa nas vendas do comércio”, afirmou.
Apesar do cenário de maior cautela, a economista destaca que a atividade econômica em Santa Catarina continua aquecida. A intenção de consumo para o Dia dos Pais apresentou crescimento de 6,1%, enquanto o saldo de empregos permanece positivo, embora em ritmo menor do que o observado anteriormente.
“Ainda temos um cenário positivo para a economia. As vendas do comércio continuam crescendo, mesmo diante dessa preocupação provocada pelas incertezas internacionais.”
Crise diplomática influencia expectativas
Para Edilene Cavalcanti, o ambiente de tensão entre Brasil e Estados Unidos influencia diretamente o comportamento de empresários e consumidores. Ela acredita que uma redução das tensões diplomáticas pode contribuir para recuperar a confiança do mercado.
“Todo esse cenário externo, envolvendo as tarifas e as disputas comerciais, influencia muito o comportamento dos empresários. A expectativa é de que, com uma melhora desse ambiente, possamos continuar registrando bons resultados no curto e no médio prazo.”
Indústria sente os efeitos antes do comércio
De acordo com a economista, os impactos das tarifas americanas são mais imediatos na indústria, especialmente nos segmentos voltados à exportação.
Entre os setores mais afetados em Santa Catarina estão a indústria madeireira e moveleira, com forte presença na Serra Catarinense, além dos segmentos metalmecânico e metalúrgico, concentrados principalmente no Norte do Estado.
Já no comércio e no setor de serviços, os reflexos costumam aparecer de forma mais lenta.
“Na indústria, os efeitos são mais rápidos porque dependem diretamente das exportações. No comércio, ainda percebemos principalmente uma mudança no comportamento e na preocupação dos consumidores.”
Inadimplência cresce 29% desde o início das tarifas
Outro dado que chama a atenção é o aumento da inadimplência das famílias catarinenses, desde o início do tarifaço, houve crescimento de 29% no número de consumidores com contas em atraso.
“O endividamento, por si só, não é um problema. Ele mostra que as famílias estão consumindo, muitas vezes por meio de financiamentos ou compras parceladas. O que preocupa é quando essas contas deixam de ser pagas.”
Hoje, cerca de 70% das famílias catarinenses possuem algum tipo de dívida, índice considerado estável. Já a inadimplência vem crescendo ao longo do último ano.
A economista destaca que o cartão de crédito continua sendo a principal modalidade de endividamento das famílias catarinenses.
Segundo ela, a facilidade de acesso ao crédito, somada às elevadas taxas de juros cobradas quando a fatura não é quitada integralmente, aumenta o risco de inadimplência.
“A maior parte do endividamento é feita por meio do cartão de crédito. Como os juros são muito elevados quando a fatura não é paga, a possibilidade de a dívida se transformar em inadimplência também é bastante alta.”
Embora o comércio catarinense ainda mantenha indicadores positivos, a Fecomércio-SC alerta que a continuidade das incertezas econômicas e da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos pode afetar gradualmente o consumo e o desempenho do varejo nos próximos meses.
Confira entrevista completa