“Tatu gigante” ganha novo capítulo com descoberta de túnel em Lauro Müller
Estrutura subterrânea com quase 26 metros pode ser evidência de animais da megafauna e viraliza nas redes sociais
A história do chamado “tatu gigante”, já conhecida no Sul de Santa Catarina, ganhou um novo capítulo após a descoberta de um túnel subterrâneo em Lauro Müller. A estrutura, localizada na comunidade de Rio Amaral Gruta, viralizou nas redes sociais após um vídeo ultrapassar 1,7 milhão de visualizações.
A galeria foi encontrada durante uma escavação na propriedade da moradora Simone Cattaneo. O túnel possui cerca de um metro de diâmetro e 25,9 metros de extensão, com formato arredondado e presença de ramificações internas. As marcas nas paredes indicam escavação por animais, característica típica de estruturas conhecidas como paleotocas.

Para entender a descoberta, o Jornal da Guarujá conversou na manhã desta segunda-feira (23) com o geólogo e professor da Unesc, Gustavo Simão, integrante do Geoparque Mundial da Unesco Caminhos dos Cânions do Sul.
Segundo o especialista, o túnel é um tipo de registro fossilizado da atividade de animais extintos. “Tecnicamente, a gente chama de icnofóssil, que é um registro da existência de um animal já extinto, um registro de um passado biológico”, explicou.
Ele destacou que, embora estruturas semelhantes já sejam conhecidas na região, a descoberta em Lauro Müller apresenta uma característica inédita. De forma indireta, o professor aponta que a maioria das paleotocas identificadas até hoje ocorre em formações geológicas específicas, enquanto o novo túnel foi encontrado em um tipo de rocha diferente, o que amplia o interesse científico.
“Ele traz uma novidade científica interessante pra gente, porque é uma ocorrência em um tipo de rocha diferente daquilo que convencionalmente foi encontrado aqui na região”, afirmou.
As dimensões da estrutura reforçam a hipótese de que o túnel foi escavado por animais de grande porte, integrantes da chamada megafauna. “Quando a gente tem um registro de um túnel com mais de um metro de altura e mais de 20 metros de comprimento, a gente não consegue atribuir ele a nenhum animal recente”, disse.
Segundo Simão, esses animais — como tatus gigantes e preguiças gigantes — viveram há milhares de anos. Estudos indicam que a extinção ocorreu entre 10 mil e 5 mil anos atrás, período anterior à presença de registros humanos mais documentados.
Ainda assim, há indícios de convivência entre humanos e esses animais. O geólogo explica que evidências arqueológicas apontam que populações humanas podem ter tido contato com a megafauna durante o período de transição climática que marcou sua extinção.
Outro ponto que chama atenção são as marcas preservadas no interior do túnel. “Nas paredes, são visíveis as ranhuras, as garras, os resquícios da escavação”, relatou o professor, que esteve no local recentemente.

Apesar do interesse científico e turístico, ele faz um alerta sobre os riscos. “A gente recomenda que essa visitação seja feita de forma ordenada, com uso de EPI, porque são túneis que apresentam risco de colapso”, afirmou.
Para o geólogo, mesmo que a história do “tatu gigante” seja tratada como lenda, ela ajuda a despertar curiosidade e conhecimento.
“É uma brincadeira, mas uma brincadeira interessante, porque traz informação e acaba agregando conhecimento”, concluiu.
Confira entrevista completa